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Alimentação (CEAP) · Panorama

Quase R$ 3 milhões em recibos pequenos

Quase R$ 3 milhões parece, à primeira vista, um número de festa. Quando o total é aberto, porém, ele se desfaz em 29.475 recibos de cerca de cem reais. A maior parte é almoço de trabalho. Ao colocar cada despesa de alimentação e hospedagem da cota parlamentar (CEAP) no mapa, o que aparece não é luxo concentrado, mas uma rotina pequena que se repete muitas vezes.

Por que olhar uma rubrica tão cotidiana

A Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP) é a verba pública que cada deputado federal usa para custear o mandato — passagens, combustível, aluguel de escritório, divulgação e, entre outras rubricas, alimentação e hospedagem. Os gastos são declarados e divulgados pela Câmara dos Deputados, item a item, com data, valor e fornecedor. A alimentação é uma fração pequena do total da cota, mas é justamente a rubrica de tíquete baixo que deixa o rastro mais denso: onde, quando e com que frequência o deputado realmente esteve.

Em vez de parar na soma, seguimos cada pagamento até o fornecedor. Cruzamos o CNPJ com a atividade econômica e as coordenadas, depois colocamos esses pontos no mapa. O resultado é menos uma tabela de despesa e mais um retrato de movimento. A primeira leitura é simples: antes de falar de valores, é preciso ver que tipo de lugar recebe esse dinheiro.

O dinheiro vai sobretudo para restaurantes

Cota parlamentar (CEAP) · Estabelecimentos por tipo
Locais
1Restaurantes5.059-
2Cafés e padarias1.547-
3Hotéis201-
4Bares149-
Fonte · Despesas de alimentação e hospedagem da cota parlamentar (CEAP), 2022–2026 · Câmara dos Deputados · Estabelecimentos georreferenciados por coordenadas

Os restaurantes dominam a base. São 5.059 dos 6.956 estabelecimentos, quase três em cada quatro, e respondem por R$ 2,62 milhões, cerca de 88% do valor. Cafés e padarias aparecem em 1.547 locais, mas com tíquete menor: R$ 269 mil. Bares somam 149 locais e R$ 51 mil. A hospedagem, que poderia soar como a parte cara da lista, é a menor: 201 hotéis, 394 pagamentos e cerca de R$ 30 mil, pouco mais de 1% do total. O retrato inicial não é o da viagem; é o do prato do dia.

O total impressiona, mas a unidade é pequena

Reunidos, os quatro tipos somam 6.956 estabelecimentos, 29.475 pagamentos e cerca de R$ 2,97 milhões, lançados por 367dos 513 deputados federais — mais de sete em cada dez — entre janeiro de 2022 e maio de 2026. Cada um desses números grandes, porém, abre num número pequeno.

Quando o valor é dividido pelos pagamentos, cada conta fica em cerca de R$ 100. Dividido pelos 367 deputados, o total vira aproximadamente R$ 8 mil por parlamentar em mais de quatro anos, algo como 80 almoços por deputado no período inteiro. O número agregado chama atenção; a peça que o compõe é comum.

O valor total cresce porque o mesmo gesto se repete: pagar uma conta pequena, perto do trabalho, milhares de vezes.

Por isso a leitura não depende de tratar R$ 8 mil por deputado como escândalo. O ponto é outro: esse gasto é granular, recorrente e concentrado no espaço. Justamente por ser feito de muitas contas pequenas, ele consegue desenhar uma rotina. Uma soma única não mostraria onde essa rotina acontece.

O tíquete médio diz que tipo de refeição é

CEAP · Valor médio por pagamento, por tipo de estabelecimento
Por conta
1BaresR$ 124-
2RestaurantesR$ 113-
3HotéisR$ 76-
4Cafés e padariasR$ 49-
Fonte · Valor total dividido pelo número de pagamentos em cada tipo, mesma base CEAP 2022–2026 · Valores em reais

O tíquete médio reforça essa escala. No restaurante, cada conta fica em torno de R$ 113; no bar, R$ 124. São valores compatíveis com uma refeição de trabalho, não com um grande evento. No café e na padaria, o tíquete cai para R$ 49, mais próximo do intervalo entre compromissos. Mesmo a hospedagem, com média de R$ 76 por lançamento, não se comporta como uma diária cara de hotel. O padrão geral é menos excesso pontual e mais repetição de gastos pequenos.

Quando os recibos viram geografia

Vistos isoladamente, esses recibos dizem pouco. No mapa, porém, os 29 mil pontos começam a mostrar para onde os deputados de fato vão. Como as outras páginas detalham, quase tudo converge para Brasília. O que parecia apenas uma coluna de valores vira geografia. A pergunta deixa de ser apenas ‘quanto se gastou’ e passa a ser ‘onde a rotina parlamentar acontece’.

E essa rotina não tem cor partidária. A despesa de cem reais no restaurante ao lado da Câmara aparece em mandatos de praticamente todas as legendas com bancada — porque não é privilégio de um grupo, é o desenho da própria estrutura. O deputado, venha de onde vier, almoça onde trabalha; e onde se trabalha é, quase sempre, o mesmo punhado de quarteirões.

O que se perde quando tudo vira soma

Gasto público de alimentação costuma aparecer como soma ou como caso isolado: uma conta cara, um exagero pontual. Os dois recortes deixam algo de fora. A soma apaga a repetição; o caso isolado não mostra o padrão. Ao abrir o total em 29.475 unidades e devolvê-las ao mapa, aparece um hábito coletivo e localizado, custeado por verba pública e registrado conta a conta. Quase R$ 3 milhões, aqui, significam sobretudo almoços de trabalho repetidos num raio pequeno. É assim que a cota parlamentar financia parte da rotina do mandato.

Metodologia e fonte · Reúne as rubricas de alimentação e hospedagem da cota parlamentar (CEAP) divulgadas pela Câmara dos Deputados (camara.leg.br/cotas), entre janeiro de 2022 e maio de 2026. Cada pagamento foi agrupado pelo CNPJ do fornecedor, classificado por atividade econômica e restrito aos estabelecimentos que foi possível georreferenciar com coordenadas de alta precisão; as despesas sem correspondência geográfica ficam de fora, de modo que estes números representam uma parte do total declarado. As médias por conta e por deputado derivam dessa mesma base. O número de deputados é contado por registro parlamentar. Valores em reais (R$). Apuração de dados · kookrator.

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