Quando as despesas de alimentação da cota parlamentar são agrupadas por estado, o desenho fica claro: 60,4% do dinheiro fica no Distrito Federal, embora ali estejam apenas 14,3% dos estabelecimentos. Os restaurantes usados pelos deputados aparecem no país inteiro; o valor, porém, se concentra em Brasília. A geografia da refeição acompanha menos o mapa eleitoral e mais o lugar onde a semana parlamentar acontece.
O que a alimentação mostra sobre a semana parlamentar
Cada deputado federal dispõe de uma cota mensal — a Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP) — para custear despesas ligadas ao mandato, e a alimentação é uma das rubricas previstas. Os gastos são declarados nota a nota e publicados pela Câmara dos Deputados em dados abertos, com data, valor e o estabelecimento onde o cartão foi passado. A refeição costuma ser uma parcela pequena de cada nota, mas é justamente por isso que ela deixa o rastro mais fino de uma rotina: onde, e com que frequência, o dia de trabalho parou para um almoço.
A pergunta aqui é geográfica: o gasto acompanha os redutos eleitorais ou a rotina de trabalho em Brasília? De um lado, há 513 deputados eleitos em 27 unidades da federação. De outro, há o Congresso, endereço em torno do qual a semana parlamentar se organiza. Somamos os estabelecimentos por estado para ver de que lado o dinheiro pesa. A base reúne quase R$ 2,94 milhões em refeições georreferenciadas, distribuídas por 6.755 estabelecimentos.
A parcela por estado
O Distrito Federal responde por 60,4%, ou três de cada cinco reais gastos em refeições. O segundo colocado, Rio Grande do Sul, fica em 9,9%, seguido por São Paulo (6,2%), Rio de Janeiro (4,3%) e Bahia (4,1%). A distância é grande demais para ser lida como uma liderança comum. Em números absolutos, a capital soma cerca de R$ 1,77 milhão, mais do que todo o resto do país somado, que reúne cerca de R$ 1,16 milhão.
O contraste: menos pontos, mais valor
A explicação não é simplesmente haver mais restaurantes em Brasília. Quem tem mais estabelecimentos na base é o Rio Grande do Sul, com 1.392 locais (20,6% do total), à frente de São Paulo (976) e do próprio DF, que aparece em terceiro lugar, com 969 (14,3%). O estado com mais pontos fica com menos de um décimo do dinheiro; o DF, com menos pontos, fica com mais da metade. A concentração está no valor que passa por cada endereço.
Divida o gasto pelo número de estabelecimentos e a diferença aparece com mais nitidez. No Distrito Federal, cada local concentra, em média, R$ 1.831 em refeições; no Rio Grande do Sul, R$ 210; em São Paulo, R$ 187. O endereço médio do DF recebe quase nove vezes o valor do restante do país (R$ 201). O mesmo ocorre por pagamento: cada nota no DF vale, em média, R$ 141, contra R$ 64 no Rio Grande do Sul. Não há apenas mais dinheiro em Brasília; há mais dinheiro por endereço.
Dois mapas no mesmo território
Os dados mostram dois mapas sobre o mesmo território. O primeiro é o mapa dos pontos: mais espalhado, com forte presença no Sul e no Sudeste, onde muitos deputados mantêm suas bases. O segundo é o mapa do valor: concentrado em Brasília, ao redor da rotina de trabalho no Congresso. O primeiro sugere onde os deputados circulam fora da capital; o segundo mostra onde a despesa recorrente acontece. E é esse segundo mapa que move a maior parte do dinheiro.
No recorte da alimentação, o Distrito Federal não tem cidades concorrentes: os 969 estabelecimentos e os R$ 1,77 milhão do DF estão integralmente em Brasília. A capital administrativa e a unidade da federação se confundem no mesmo lugar, o que torna a concentração mais nítida. Não é uma região ampla que puxa o gasto; é a cidade construída para ser a sede do poder.
A semana dividida do mandato
Por trás dos percentuais está uma rotina conhecida: a semana parlamentar se divide entre a base e a capital. De terça a quinta, comissões, plenário e articulação se concentram em Brasília, e é nesse intervalo que os almoços de trabalho se acumulam. Nos demais dias, o deputado volta ao estado de origem, mas ali a refeição paga com a cota aparece menos como regra. A geografia do gasto, portanto, não é um desvio; ela acompanha onde o trabalho legislativo se concentra.
O que essa concentração revela
A cota de alimentação é dinheiro público, e a transparência da CEAP permite seguir cada real. Mas, quando o dado fica apenas em tabela e total, a geografia desaparece. Ao colocar os estabelecimentos no mapa e somar por estado, o que aparece não é apenas um número alto; é uma estrutura. A concentração em Brasília era esperada. O que a análise mede é o grau dessa concentração: 60% do dinheiro em uma unidade com 14% dos pontos, R$ 1.831 por endereço onde o restante do país fica em R$ 201. A representação política tem um centro físico, e esse centro também tem um custo cotidiano.
Método e fonte · Despesas de alimentação da cota parlamentar (CEAP), publicadas em dados abertos pela Câmara dos Deputados (camara.leg.br/cotas). O estado (UF) foi extraído do final do endereço de cada estabelecimento (…CIDADE/UF), e os valores foram agregados por montante. As médias por estabelecimento e por pagamento resultam da divisão do montante total de cada estado pelo respectivo número de locais e de notas. Inclui apenas as despesas georreferenciadas por coordenadas, pelo que representa uma parte do total. Valores em reais (R$); este é um retrato no momento do pagamento. Agregação de dados · kookrator.