A pergunta não foi qual restaurante recebeu a maior conta. Foi qual deles entrou na rotina de mais deputados. Ao contar os parlamentares diferentes que pagaram alimentação com a cota, o Taioba Executivo aparece na frente: 76 nomes distintos. A lista mostra menos uma cena de luxo e mais o mapa prático do almoço de trabalho em Brasília.
Por que começar pelas pessoas, não pelo valor?
A cota para o exercício da atividade parlamentar (CEAP) reembolsa o deputado federal por despesas ligadas ao mandato, e a Câmara dos Deputados publica cada lançamento, item a item. Entre essas rubricas está a alimentação. As refeições são uma fatia pequena do total da cota, mas precisamente porque cada conta é baixa, deixam o rasto mais fino de uma coisa que os grandes números escondem: onde, e com que rotina, os deputados se sentam à mesa.
Um ranking por valor responde a outra pergunta: onde houve contas maiores. Aqui a régua é mais simples e mais física. Quantos deputados diferentes incluíram aquele endereço no seu dia? Esse número não mede luxo nem fidelidade individual; mede o quanto uma casa foi compartilhada por agendas distintas. Agregámos os lançamentos por estabelecimento (CNPJ), tal como no mapa, juntando restaurantes, cafés e bares.
O primeiro lugar é um almoço comum
O Taioba Executivo soma 509 pagamentos e 76deputados diferentes, bem à frente do Restaurante Mangai (57). O dado chama atenção justamente porque o Taioba não parece um palco excepcional: é um self-service, do tipo ‘por quilo’, comida de bandeja e almoço rápido. O restaurante que mais juntou nomes da Câmara não foi o mais solene; foi o que cabia melhor entre uma agenda e outra.
O que une os líderes não é o cardápio, é a distância
O restante da lista confirma que o Taioba não é uma exceção. Há buffet, galeteria, restaurante de almoço executivo e casa no aeroporto: Mangai e Galeteria Beira Lago na Asa Sul, Coco Bambu e Natural Greens na Asa Norte, Madero no JK. A cozinha muda, mas o uso se repete. São lugares fáceis de encaixar no expediente. E o padrão geográfico é ainda mais claro: os oito primeiros ficam todos no Distrito Federal, muitos deles entre Asa Sul e Asa Norte, dentro da rotina de quem trabalha perto do Congresso.
Deputados federais representam eleitorados espalhados por todo o país, mas a hora do almoço estreita esse mapa. As despesas de alimentação não desenham o Brasil dos votos; ampliam alguns quarteirões de Brasília. O número de deputados diferentes mostra a força desses endereços: quantos dias de trabalho, vindos de gabinetes diferentes, passaram pela mesma mesa.
Quando entram os habituais, a lista muda
A primeira lista responde a quem atraiu mais gente. A pergunta seguinte é outra: quem fez essa gente voltar? Um restaurante visitado uma vez por muitos deputados não é igual a uma casa repetida por um grupo menor. Por isso dividimos o número de pagamentos pelo número de deputados diferentes. O resultado é a densidade de habituais — e ela muda a ordem.
O caso mais revelador é o Natural Greens. Por nomes diferentes era apenas o quinto (39 deputados), mas seus 339 pagamentos equivalem a 8,7 voltas por deputado, a maior densidade da lista. Um único parlamentar pagou ali 67 vezes. Não parece um lugar pelo qual todos passam uma vez; parece a cantina de um grupo menor. O Taioba, com 6,7, combina as duas forças: muita gente e muita repetição.
O Mangai mostra o outro lado. Ele é o segundo em deputados distintos (57), mas cai para 3,0 pagamentos por pessoa. Muitos passaram por lá; poucos voltaram muitas vezes. É mais o restaurante para levar alguém do que a escolha automática de uma terça-feira. As duas réguas se completam: uma mostra alcance, a outra mostra hábito.
O que aparece quando a tabela vira mapa
A despesa da cota parlamentar é pública, mas quase sempre chega ao leitor como tabela e soma. Nesse formato, o movimento desaparece. Quando os restaurantes entram no mapa e são ordenados por gente, não por dinheiro, surge a rotina física do mandato: almoços rápidos perto do Congresso, endereços repetidos, escolhas que precisam caber no calendário do dia. Não é uma história de banquetes. É a geografia miúda do trabalho parlamentar.
Método e fonte · Despesas de alimentação da cota parlamentar (CEAP), publicadas pela Câmara dos Deputados (camara.leg.br/cotas). Contabilizámos o número de deputados diferentes (por registo parlamentar) que pagaram em cada estabelecimento, agrupando-os por CNPJ tal como no mapa e juntando restaurantes, cafés e bares. A densidade de habituais é o número de pagamentos a dividir pelo de deputados diferentes. Inclui apenas as despesas georreferenciadas por coordenadas; estabelecimentos com o mesmo nome em moradas distintas (como o Don Durica) são casas separadas. É uma fotografia no momento do pagamento; a classificação aponta para o estabelecimento contabilizado, não para qualquer deputado em particular. Contagem de dados · kookrator.