A cota parlamentar também paga hospedagem, mas esse é um pedaço pequeno da conta. São 201 hotéis e 394 pagamentos que, somados, chegam a R$ 29.817: cerca de 1% de tudo o que aparece em refeições e estadias. O interesse aqui não está no tamanho do gasto, e sim no formato dele: pouco dinheiro, muitos endereços e uma concentração inesperada em um único hotel de Brasília.
O que entra na conta de hospedagem da cota
Todo deputado federal tem direito à Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP), uma verba mensal que reembolsa despesas de mandato — passagens, combustível, divulgação, alimentação, hospedagem. Cada reembolso é declarado e publicado no portal da Câmara, com data, valor e fornecedor. A hospedagem é uma das rubricas, pensada para cobrir estadias quando o trabalho exige sair de casa: viagens à base eleitoral, eventos, deslocamentos dentro do país.
Reunimos as despesas classificadas como hospedagem, agrupadas por hotel a partir do CNPJ do fornecedor, e mantivemos apenas as que foi possível situar num ponto do mapa. O resultado é uma categoria pequena: 201 estabelecimentos, 394 pagamentos, R$ 29.817 ao todo. Para comparar, o gasto com refeições na mesma cota soma R$ 2,94 milhões. Lado a lado, a hospedagem vale 1,01% do conjunto refeições mais estadia. É pouco, mas por isso mesmo alguns padrões aparecem sem ruído: onde há concentração, ela fica evidente; onde há dispersão, ela também.
Os hotéis que mais aparecem na conta
Há um único destaque: o Kubitschek Plaza, na Asa Norte de Brasília, com R$ 4.164 em 62 pagamentos. Sozinho, ele representa 14% de toda a hospedagem— mais do que os cinco hotéis seguintes somados (R$ 3.877). Depois dele, a lista cai depressa: o segundo colocado, o Laghetto em São Paulo, fica em R$ 1.060; o terceiro, o Bourbon de Foz do Iguaçu, em R$ 850. A partir daí, aparecem valores de uma ou duas diárias, espalhados por São Paulo, Foz do Iguaçu, Chapecó e Florianópolis.
Uma cauda muito longa: 72% dos hotéis têm um só pagamento
Por trás dos seis primeiros está uma cauda longa. Dos 201 hotéis, 145 (72%) aparecem com um único pagamento, e 170 (85%) com dois ou menos. Olhando por quem gastou, o padrão se repete: 173 hotéis (86%) foram usados por um só deputado. A despesa típica é baixa — a mediana por hotel é de apenas R$ 82, e cada pagamento vale, em média, R$ 76. O retrato não é o de uma rede de hotéis frequentes, mas o de muitas paradas isoladas.
O destaque é, na verdade, uma pessoa só
Vale aproximar a lente no Kubitschek Plaza, o único ponto que muda a escala do ranking. Os 62 pagamentos não estão repartidos por muitos deputados: o hotel registra cinco parlamentares, mas um deles responde por 49 dos 62 pagamentos— quase 80%. Os outros 13 dividem-se por quatro pessoas. Ou seja, o que poderia parecer um hotel muito usado pelo Congresso é, na prática, uma sequência de estadias de um único deputado na capital, com pagamentos pequenos (média de R$ 67 cada) que só somam por serem muitos. O destaque do ranking não é um padrão coletivo; é um caso individual.
Hospedagem se espalha; almoço se concentra
A comparação com as refeições fecha o argumento. O gasto com almoço é fortemente concentrado em Brasília: o Distrito Federal sozinho responde por 60% de todo o valor de refeições — deputados que comem, dia após dia, perto do Congresso. A hospedagem faz o contrário: espalha-se por 18 estados, e os três primeiros ficam próximos — Santa Catarina (19%), Distrito Federal (17%) e Rio Grande do Sul (15%). Nenhum estado domina.
A própria fatia de Brasília depende muito de um endereço. Dos R$ 5.056 gastos com hotéis no Distrito Federal, 82% são do Kubitschek Plaza— e, como vimos, quase tudo de um deputado só. Tirado esse caso, a capital quase não aparece na hospedagem. Faz sentido: quem trabalha em Brasília almoça ali todos os dias, mas em geral dorme em casa ou em residência funcional, não em hotel pago pela cota. A hospedagem, ao contrário do almoço, registra deslocamento: viagem ao interior, ao reduto eleitoral, a um evento fora do eixo. Onde a comida desenha a rotina fixa da capital, a hospedagem desenha idas e vindas pelo país.
Por que olhar uma rubrica tão pequena?
Justamente porque é pequena. Numa categoria de R$ 30 mil, sem médias infladas por grandes valores, dá para ver com clareza como o dinheiro público se comporta: um caso isolado que parece tendência, uma cauda enorme de gastos únicos, um mapa que se inverte quando se troca a rubrica. A transparência da cota não termina nas grandes somas; ela ganha sentido quando cada linha — mesmo uma diária de R$ 82 num hotel de interior — pode ser situada, contada e comparada. A hospedagem pesa pouco no total, mas ajuda a separar rotina fixa, deslocamento e caso individual.
Método e fonte · Despesas classificadas como hospedagem na cota parlamentar (CEAP), publicadas pela Câmara dos Deputados (camara.leg.br/cotas), agregadas por hotel a partir do CNPJ do fornecedor e restritas às que foi possível georreferenciar por coordenadas. Alguns registros aparecem com a razão social da empresa (LTDA, S/A) em vez do nome comercial do hotel — 77 dos 201. Participações, medianas e médias foram calculadas sobre esses mesmos dados; a comparação com refeições usa a rubrica de alimentação da mesma cota. É uma fotografia do período coberto; o ranking aponta para o estabelecimento agregado, não para qualquer parlamentar em particular. Agregação de dados · kookrator.